Carla Arruda ama o mar
A paixão de Carla pela vela começou com o windsurfe
A paixão de Carla pela vela começou com o windsurfe
Foto: ARQUIVO PESSOAL

,, Eu sempre repito: Jeri é do vento!

Carla Arruda chegou a Jericoacoara antes da luz elétrica. A chef de cozinha e velejadora estava morando em Morro de São Paulo, na Bahia, quando ouviu falar de Jeri pela primeira vez. As referências de um amigo foram tão boas que ela viajou até lá, e ficou. Pioneira nas escolas de kite da vila, Carlinha, como é conhecida entre os seus, é mãe de dois kitesurfistas, e um deles é Flora Arruda, que atualmente trabalha no marketing da Eleveight Brasil. Aqui você vai saber como foi o começo dessa história de amor entre ela e a vela e como fundou o Naturalmente, um dos restaurantes mais tradicionais do destino, que quando foi inaugurado funcionava à luz do lampião

Carla pesca em Jericoacoara, onde fez seu lar

Carla, como começou a tua paixão pelo mar?

Meu pai me deu minha primeira prancha de isopor em 1980. Até hoje, lembro de descer a ladeira que ia dar na Praia do Futuro e da sensação de descer “bolando” nas ondas até a areia. Essa prancha foi minha companheira inseparável até se partir ao meio. No final dos anos 80, outra paixão me arrebatou: o Morey Boogie Mach 7. Todo dia depois da escola eu passava na Mesbla pra "namorar" com ele. Nessa época, não havia muitas mulheres na água, e praticar esportes no mar era motivo de conflitos familiares. Saí de casa, fui trabalhar na Cavalo Marinho, empresa que me “adotou”, e comecei a viajar pros campeonatos…

Mãe e filho são parceiros dentro e fora d'água

Teus dois filhos sentem a mesma paixão? 

Sim! Os dois vivem na água… O Pedrinho tem a própria escola de kite em Jeri, e a Flora mora no Preá e tem a escola dela lá, com o namorado. Esse é meu legado, é o que tem de melhor em mim: conectar meu corpo ao vento e ao mar e ser movida por essa energia. Eu espero ver essa genética salgada se perpetuar com o meu cardume.. 

Flora veleja na Espanha, onde passa parte do primeiro semestre

Flora, como você se apaixonou pelo mar?

Surfar me levou pro mar. Comecei a surfar na ponta, em frente ao Naturalmente. Depois veio o kite, no Preá. Hoje eu surfo de surfe foil, velejo de kitewave e bidirecional e sigo saltando alto no kite, que é o esporte que já me levou pra Espanha, França, Suiça, Itália e Portugal. O mais incrível é que não importa a parte do mundo onde eu estou, se eu estou no mar, me sinto em casa. No mar eu estou feliz. 

A paixão pelo mar segue na segunda geração da família Arruda

Tua mãe te inspirou a ter essa vida?

Sim, minha mãe é minha maior inspiração. Desde pequena eu a via ensinando e brincava de ensinar minhas amigas. Na alta temporada, eu vivo de dar aulas de surfe, de manhã, e de kite, à tarde. Enquanto eu puder, vou tá ensinando. Já tive alunos de seis a sessenta anos. 

Vista do Naturalmente 

Carla, por que viver em Jeri?

Jeri veio pra minha vida como mágica… Eu não tinha planos ao chegar lá, mas uma italiana me ofereceu uma cozinha pra eu montar meu negócio. Minha primeira cozinha foi feita de presentes de amigos. Não tínhamos luz elétrica, eu trabalhava na luz do lampião. Acordava às 4h da manhã pra ir pescar e assim garantia o almoço da semana. O mar é meu grande amor. 

Carla é da primeira geração de kitesurfistas do Ceará

Só depois do surfe e da pesca que veio a vela?

Foi… Assim que chegaram as primeiras velas de windsurfe em Jeri eu me apaixonei perdidamente por essa possibilidade colorida de estar no mar, dessa vez abraçada pelo vento. O italiano Mauricio Gusella resolveu fazer uma missão impossível: ensinar o esporte, no mar, com os equipamentos dele. A turma era uns nativos e eu. Dessa ação do Mauricio veio a melhor geração de windsurfe de Jeri, e aí mudamos a nossa história, e do lugar.  Alguns anos depois chegou o kitesurfe e inauguramos a primeira geração de kitesurfistas do Ceará. Nessa época não havia segurança no equipamento nem didática no ensino. A gente ensinava e aprendia no amor, na amizade e com faca no trapézio… Eu sempre repito: Jeri é do vento!  

Carla faz os melhores crepes de Jeri há quase 30 anos

Como começou o Naturalmente? 

Um amigo francês estava com saudades do crepe de sua avó, daí ele ligou para ela, na França, e pediu a receita. Foi com essa receita que eu fiz meu primeiro crepe, mas desde então, fui melhorando e cheguei ao crepe que servimos hoje. Comecei o Naturalmente, na vila, e logo depois apareceu o ponto na praia, onde estou há 27 anos.  

 

A chef cearense se conecta ao mar de muitas formas

Aos 52 anos, a disposição para entrar no mar é a mesma?

Eu vou velejar até morrer. Ano passado tirei meu arrais amador e agora estou me preparando para tirar a habilitação de mestre amador. Todos os esportes que eu pratico são meios de estar no mar. Quando o vento acaba, eu vou em busca das ondas pro SUP wave e se não tiver vento nem onda eu me entrego à mágica da natação, que traz uma sensação inigualável de pertencer ao mar…

Foto de Giselle Nuaz

Por: Giselle Nuaz

Giselle é do Ceará. Kitesurfista experiente e jornalista esportiva, ela escreveu o Vidas ao Vento, primeiro livro sobre kitesurfe publicado no Brasil. Organizou o Kiteparade, evento que colocou o Ceará no Guinness World Records duas vezes. Umas das idealizadoras do movimento Kite For The Ocean (K4TO), lançou o K4TO Challenge, escrevendo o nome do Ceará no livro dos recordes pela terceira vez. Atualmente, Giselle escreve seu segundo livro, intitulado Vento, que contará a história do kitesurfe no país; é embaixadora do K4TO e relata aqui as belezas da natureza e das pessoas da sua terra.
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